A saúde mental deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar o centro das decisões nas escolas. Esse foi o principal recado da palestra “NR-1 nas Escolas: da Obrigação Legal à Cultura de Saúde Mental para Aprender”, realizada na última quarta-feira (9), na sede do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Distrito Federal (SINEPE-DF), em Brasília. O encontro reuniu mais de 70 gestores e mantenedores de instituições filiadas, em um momento de atualização sobre a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a exigir o gerenciamento de riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
A presidente do SINEPE-DF, Ana Elisa Dumont, deu as boas-vindas aos participantes e à palestrante Juliana Spinelli Ferrari Sinzato, psicóloga, mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP, doutoranda em Psiquiatria pela Unifesp, consultora do Banco Mundial e cofundadora do programa Aura. O ex-presidente do Sindicato e conselheiro do Conselho de Educação do Distrito Federal (CEDF), Álvaro Domingues, também acompanhou o evento.
Na abertura, a palestrante provocou a plateia a rever a forma como a normativa vem sendo encarada. “Não é só sobre obrigação”, afirmou, ao destacar que a NR-1 responde a um problema real das escolas e, ao mesmo tempo, abre uma oportunidade estratégica de transformação na gestão. Ao longo da apresentação, Juliana foi direta ao afirmar que não há aprendizagem sem saúde mental. “Saúde mental na escola não é consultório. É condição para o trabalho acontecer e para a aprendizagem acontecer”, explicou.
Com base em evidências da neurociência, ela mostrou que emoção e cognição funcionam de forma integrada e que, em ambientes marcados por estresse, medo ou instabilidade, o cérebro entra em modo de sobrevivência, reduzindo sua capacidade de aprender com qualidade. Na prática, isso ajuda a explicar por que o adoecimento de profissionais impacta diretamente o desempenho das escolas. “O adoecimento não é abstrato. Ele aparece na rotatividade, nos afastamentos e na perda de qualidade da aprendizagem”, destacou.
Gestão como pilar da solução
A palestra também trouxe um olhar mais estruturado sobre os chamados riscos psicossociais, base da NR-1. Fatores como sobrecarga, falta de autonomia, liderança fragilizada, conflitos internos e sensação de injustiça organizacional foram apontados como elementos que, somados ao longo do tempo, aumentam o risco de adoecimento das equipes. Apesar da complexidade do tema, a mensagem foi objetiva: a escola tem margem de ação. “O único fator que a escola controla de verdade é o trabalho”, afirmou Juliana, ao colocar a gestão no centro da solução.
Mais do que cumprir uma exigência legal, a proposta apresentada foi usar a NR-1 como alavanca para reorganizar o funcionamento da escola. Isso envolve dar mais clareza às funções, estruturar rotinas, fortalecer lideranças e criar ambientes mais previsíveis e seguros. “Quem começar antes a atuar no âmbito da prevenção vai sair na frente”, afirmou a palestrante, ao destacar que a saúde mental tende a ser um diferencial competitivo para as instituições de ensino nos próximos anos.
Nesse processo, ela apresentou o conceito das quatro seguranças: social, física, emocional e cognitiva, como base para sustentar tanto o trabalho das equipes quanto a aprendizagem dos estudantes. Para os gestores, o recado final foi pragmático: não esperar estruturas complexas para agir, mas começar por um movimento essencial, a escuta qualificada das equipes.
“A gente precisa sair da pergunta ‘como você está?’ e avançar para ‘o que você precisa para dar conta do dia hoje?’”, sugeriu, como forma de transformar o cuidado em ação concreta no cotidiano escolar. A partir disso, o caminho envolve mapear riscos, organizar o trabalho, criar rotinas de acompanhamento e estruturar políticas internas que sustentem as mudanças ao longo do tempo.
Ao final, a palestra deixou um recado direto aos gestores: a NR-1 não é apenas mais uma obrigação a cumprir, mas um marco na forma de pensar a escola. Ao investir em ambientes de trabalho mais saudáveis, as instituições não apenas reduzem riscos e evitam passivos, mas também fortalecem vínculos, melhoram o clima organizacional e criam condições reais para que a aprendizagem aconteça.
A iniciativa integra a agenda do SINEPE-DF de apoio às escolas filiadas, promovendo atualização técnica e fortalecimento da gestão diante dos desafios contemporâneos da educação.